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O território não é dado. Constrói-se, disputa-se, imagina-se. À margem de cartografias institucionais ou limites administrativos, o território emerge da prática, da forma como o habitamos, daquilo que nele projetamos, das memórias que carrega e das presenças que acolhe. Mais do que superfície ou perímetro, o território é um processo em movimento, atravessado por relações de poder, e disputas de visibilidade. Neste sentido, pensar a (re)territorialização dos lugares é reconhecer que estes não são espaços neutros, mas paisagens em constante negociação simbólica, afetiva e política.
No contexto atual, territorialização refere-se ao processo através do qual um território adquire significado, estrutura e valor a partir de dinâmicas sociais, políticas e económicas. Envolve a organização do espaço, a definição dos seus usos e a atribuição de sentidos por parte de diferentes atores. Quando falamos de (re)territorialização falamos de um processo transformador: de reposicionar narrativas, corrigir assimetrias e reconfigurar formas de pertença (sobretudo quando se procura contrariar lógicas de exclusão, invisibilização ou homogeneização). Este processo torna-se particularmente relevante em contextos de desertificação social, turistificação, transformação industrial ou deslocamento populacional, onde o sentido de lugar se fragiliza. (Re)territorializar é devolver protagonismo às comunidades e reconhecer formas diversas de habitar e interpretar o território.
É neste domínio que a criação artística em espaço público assume um papel estratégico. Ao intervir no quotidiano, a arte pode tornar visível o que é despercebido, valorizar o que é desvalorizado e abrir espaço para novas leituras e apropriações dos lugares. Importa sublinhar que esta intervenção não se esgota na experiência estética, mas pode gerar resultados concretos: aumento da participação cívica, reforço da coesão social, reativação de espaços abandonados, circulação económica local, consolidação de identidades coletivas. Mais do que ocupar fisicamente o espaço, trata-se de criar condições para que esse espaço se torne culturalmente significativo para quem o habita. Neste processo, ganha centralidade o valor simbólico dos territórios, isto é, a capacidade de um lugar representar algo mais do que a sua função utilitária ou localização geográfica. São os sentidos atribuídos pelas comunidades, as narrativas construídas em torno de espaços específicos, os gestos, memórias e histórias que ali se acumulam. A (re)territorialização envolve, assim, um movimento de identificação: o reconhecimento, por parte das pessoas, de que aquele lugar lhes pertence de alguma forma, seja pela vivência, pelo afeto ou pela partilha de valores. Estes valores podem ser observados, acompanhados e até medidos, através de metodologias participativas, cartografias afetivas, entrevistas, focus group, ou sistemas de observação cultural contínua.
A arte, quando inserida nesse contexto, pode operar como catalisador do processo identitário. Projetos que trabalham histórias de vida, referências locais, património imaterial ou com a participação direta das comunidades reforçam a ligação emocional e simbólica entre as pessoas e os lugares. Podem ativar sentimentos de pertença e reforçar identidades coletivas, sobretudo em territórios onde estes laços foram fragilizados. Estas dinâmicas podem ser acompanhadas por métricas qualitativas (níveis de participação, diversidade de envolvimento, intensidade das redes de colaboração) e métricas quantitativas (número de participantes, continuidade de grupos, reativação de espaços, frequência de usos culturais após o projeto). Projetos que envolvem percursos performativos, residências artísticas com imersão comunitária, criações site-specific em zonas pós-industriais ou atividades em territórios de baixa densidade são exemplos concretos de como a arte pode contribuir para essa transformação. Nestes casos, o lugar deixa de ser apenas cenário e passa a ser protagonista, com as suas especificidades, tensões, fragilidades e potências. A qualidade destes processos não se avalia pela escala mediática, mas pela sua capacidade de gerar continuidade, corresponsabilidade e apropriação após a saída dos artistas.
Contudo, este trabalho envolve desafios estruturais. A precariedade dos modelos de financiamento, a descontinuidade das políticas públicas e a dificuldade de articulação entre agentes culturais, decisores políticos e comunidades locais limitam o alcance e a sustentabilidade destes processos. A (re)territorialização exige tempo, compromisso e uma visão estratégica integrada, que reconheça o valor da cultura no desenvolvimento territorial. Sem continuidade, o território não se transforma, limita-se a cumprir agendas moldadas por preferências individuais, frequentemente desconectadas das realidades e dinâmicas dos próprios territórios.
Ao falarmos de geografias em disputa, o que está em causa é a possibilidade de construir lugares com significado, lugares que são vividos, reconhecidos e partilhados. Lugares onde cada gesto e cada presença contam. A criação artística em espaço público tem aqui um contributo insubstituível: não apenas como instrumento de expressão ou fruição, mas como dispositivo de transformação, capaz de reconfigurar relações, ativar memórias adormecidas e revelar pertencimentos que persistem mesmo quando não são nomeados. Valorizar o território é reconhecer que identidade, economia, política e cultura não são dimensões separáveis, mas camadas que se entrelaçam na experiência concreta de viver juntos. É reconhecer que os lugares não se definem apenas por mapas ou infraestruturas, mas pelo que neles se sente, se recorda, se cuida e se projeta. Valorizar o território é, também, valorizar as pessoas que o habitam: os seus saberes silenciosos, os seus afetos, as suas histórias e os seus valores. É reconhecer que cada comunidade guarda um arquivo vivo, tecido no tempo, e que a sua ativação exige escuta, presença e continuidade. A arte, quando se inscreve neste movimento, não chega para ocupar o espaço, mas para abrir espaço: para criar condições de encontro, de reconhecimento e de imaginação partilhada. E é nessa possibilidade (a de imaginar juntos o que um lugar pode ser) que reside o verdadeiro potencial de transformação territorial.
Fotografia: © Klara Kulikova
Bruno Costa é doutorado em Estudos Culturais pela Universidade de Aveiro e mestre em Gestão das Indústrias Criativas pela Universidade Católica Portuguesa (UCP). A sua investigação centra-se na construção da identidade europeia, com especial foco nos processos de internacionalização de projetos artísticos e na cooperação cultural europeia. É docente convidado na UCP, onde leciona a unidade curricular Parcerias, Redes e Internacionalização nas Indústrias Criativas, e integra os comités de governação da Circostrada Network e da IN-SITU - plataforma europeia de criação artística em espaço público. Como co-director da Bússola, o seu percurso profissional tem-se focado nas áreas da estratégia, planeamento, financiamento e gestão aplicadas ao setor cultural e criativo.
Daniel Vilar é doutorando em Ciência Política, mestre em Ciências da Comunicação pela Universidade do Porto e licenciado em Gestão de Marketing pelo IPAM. É gestor cultural e de marketing, com foco nas políticas culturais, na economia criativa e no desenvolvimento de territórios criativos. Como codiretor da Bússola e da Outdoor Arts Portugal, tem desenvolvido projetos que articulam políticas culturais, criatividade e comunicação, promovendo modelos de desenvolvimento de territórios através do placemaking como metodologia para o desenvolvimento sustentável. Participa regularmente em conferências sobre estratégia cultural e desenvolvimento de territórios criativos. Trabalha no cruzamento entre cultura, política e planeamento, desenvolvendo políticas e programas que usam a cultura como motor de mudança social, económica e territorial.
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