#27. Desafios do espaço público na atualidade

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#27. Desafios do espaço público na atualidade

Data:

25

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03

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2026

Autor:

Dora Komenda

Palavras-chave:

automobilização, segregação urbana, pseudo-espaço público
#27. Desafios do espaço público na atualidade

Os desafios que enfrentamos enquanto cidadãos e enquanto profissionais do domínio da criação artística em espaço público sobrepõem-se em grande medida. Aquilo que influencia a vida das pessoas influencia igualmente os processos criativos e o trabalho da comunidade artística. Ao mesmo tempo, os artistas têm formas próprias de abordar e enfrentar esses desafios, muitas vezes em colaboração com habitantes e comunidades locais, porque ambos são inseparáveis: são as pessoas, os seus hábitos quotidianos e as suas ações que fazem o espaço público ganhar vida.


Alguns dos desafios que aqui refiro são universais e mantêm-se ao longo do tempo, outros resultam de condições socioeconómicas específicas da atualidade.

Naturalmente, conheço melhor os desafios do espaço público que habito no meu quotidiano, seja no tempo livre, na prática profissional em arquitetura ou no meu percurso nas artes performativas. Ainda assim, num mundo cada vez mais globalizado, acredito que muitas destas questões ultrapassam fronteiras geográficas.


O espaço público de que falo situa-se em Split, cidade croata na costa do mar Adriático, marcada por uma atmosfera simultaneamente balcânica e mediterrânica, onde é comum que a vida se prolongue na rua. Nesse sentido, o espaço público em cidades como esta alterou-se há muito, com o desenvolvimento tecnológico e, sobretudo, com a indústria automóvel, que conduziu a cidade moderna a privilegiar a circulação e o estacionamento de automóveis em detrimento da circulação pedonal. A rua deixou de ter o significado que outrora teve, transformando-se, ao longo do tempo, de espaço público essencial da cidade, onde predominavam o trânsito pedonal e a vida coletiva, numa via rápida para o tráfego automóvel, independentemente dos custos sociais associados.


No contexto dos desafios atuais, sinto que lidamos com problemas semelhantes aos de há cinquenta ou mais anos, se recuarmos ao período de maior expansão da indústria automóvel após a Segunda Guerra Mundial, na década de 1950.


Se observarmos modelos históricos a partir de diferentes perspetivas, verificamos que a cidade renascentista apresentava geralmente um perfil baixo e horizontal, com uma proximidade entre a vida nos edifícios e as atividades na rua. Com a invenção do elevador mecânico e o desenvolvimento de novas tecnologias de construção, a cidade moderna tornou-se um ambiente dominado por verticalidades, arranha-céus altos que pouco participam na vida da rua.


Além disso, a expansão espacial lenta e contínua da cidade implica frequentemente uma segregação social baseada na origem e na condição económica. A divisão em grupos num contexto culturalmente heterogéneo constitui uma consequência negativa do crescimento urbano que ameaça anular talvez o maior valor da vida urbana, o cosmopolitismo. A cidade deveria ser um lugar de diversidade de estilos de vida e de diversidade de indivíduos.


Por exemplo, o elevado custo da habitação nos centros urbanos transformou estas áreas em espaços quase não democráticos, onde nem todos são bem-vindos, por diferentes razões. No caso de Split, o centro da cidade tornou-se inacessível ou desinteressante para muitos dos seus antigos residentes devido ao desenvolvimento turístico rápido, intenso e insustentável. Os usos dos edifícios alteraram-se de forma acelerada e o hábito de viver no centro foi substituído pelo arrendamento de curta duração, que passou a gerar rendimentos significativos, contribuindo para a escalada dos preços imobiliários. Que espaço é este quando deixa de ser lugar de habitação, de encontros espontâneos e de construção de identidades coletivas?


O surgimento dos centros comerciais transferiu igualmente o comércio e o entretenimento da rua para espaços controlados, artificialmente criados. O habitante da cidade contemporânea é levado a viver a sua vida social em territórios privados ou controlados, em vez de participar na convivência comunitária que tradicionalmente acontecia na rua.


A cidade moderna molda os nossos comportamentos, alterando a consciência coletiva sobre o significado do espaço público. Centros comerciais, praças diante de sedes corporativas e outros lugares semelhantes criam a ilusão de espaço público, onde os riscos e as incertezas da vida quotidiana foram cuidadosamente eliminados. Nestes espaços não há verdadeira liberdade de expressão, nem músicos de rua, nem exposição às condições atmosféricas, trata-se, simplesmente, de um pseudo-espaço público. O mesmo sucede com indivíduos marginalizados, o que conduz àquilo que Trevor Boddy, em 1992, designou como “cidade analógica”, uma cidade de espaços públicos artificiais, desprovidos das camadas sociais consideradas indesejáveis.


Outro problema que importa sublinhar é a ausência de democratização no desenvolvimento urbano. A participação nos processos de decisão, a forma como os recursos são distribuídos na cidade e quem tem direito a intervir nessas decisões são questões centrais. Um planeamento urbano e uma gestão do espaço físico pouco transparentes influenciam diretamente onde as pessoas vivem, como as comunidades se formam, que acesso têm a equipamentos e serviços, quanto tempo despendem em deslocações, entre muitos outros aspetos determinantes para a qualidade de vida.


Em síntese, e numa perspetiva mais otimista, reconhecer os desafios do nosso mundo e do nosso espaço público é o primeiro passo para os enfrentar de forma consciente e transformadora.


Fotografia: © Damira Kalajzic


Dora Komenda

Dora Komenda é arquiteta e artista de circo croata. Coprodutora e codiretora da Cirkus Kolektiv, associação dedicada ao circo contemporâneo e a práticas artísticas afins, e coproprietária do atelier de arquitetura Kolektiv tri, desenvolve o seu trabalho em ambos os campos de forma simultânea.


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