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Para compreender os desafios que as Artes de Rua bascas enfrentam atualmente, é necessário situarmo-nos no contexto geopolítico de um território histórico cuja identidade está profundamente enraizada na utilização de uma língua: o Euskera, ou Basco.
Euskal Herria (a terra dos bascos, ou seja, das pessoas que falam basco) é composta por sete províncias distribuídas por três regiões administrativas em dois Estados: Euskadi e Navarra, em Espanha, e Iparralde (integrado na Aquitânia), em França. Neste artigo, focamo-nos nas artes de rua de Euskadi, por ser o contexto que nos é mais próximo e, consequentemente, aquele que melhor conhecemos.
Euskadi sempre teve uma forte tradição de artes de rua, inicialmente associada às festividades populares das aldeias. Esta tradição ganhou força durante os anos 1970, nos últimos anos da ditadura, com companhias provocadoras a ocuparem o espaço público, consolidou-se nas décadas de 1980 e 1990 através da criação de novas e diversas companhias de teatro, e expandiu-se nos anos 2000 com o crescimento de outras disciplinas, como a dança e o circo.
Atualmente, existem cerca de 90 companhias de diferentes disciplinas a apresentar espetáculos de rua e pelo menos 20 festivais realizados em espaço público, para além das festas patronais de cada localidade, onde as performances de rua continuam a integrar a programação em maior ou menor escala.
Pela sua história e crescimento, podemos afirmar que as artes de rua bascas atravessam um bom momento artístico. No entanto, os constrangimentos impostos pelos calendários ditados pelos financiamentos institucionais, essenciais à sobrevivência do setor, bem como por um mercado que exige produtos dirigidos a todos os públicos, ignorando muitas vezes que a rua é um espaço político e comunitário, dificultam a experimentação e o desenvolvimento de novas dramaturgias por parte das companhias. Em consequência, os festivais assistem também a uma redução da oferta de propostas mais ousadas. Estaremos perante um círculo vicioso?
Ao nível institucional, existe um compromisso do Departamento de Cultura do Governo Basco, tanto ao nível conceptual como operacional. Ainda assim, um dos maiores desafios passa pela criação de políticas especificamente dirigidas às artes de rua. Embora existam apoios para programação, não existem mecanismos específicos para a produção, e as candidaturas das companhias aos apoios públicos têm de ser submetidas individualmente de acordo com a sua disciplina (teatro, circo ou dança), competindo diretamente com as produções de sala.
Importa também destacar o trabalho desenvolvido pelo Instituto Etxepare na promoção internacional das Artes de Rua bascas, através da manutenção de acordos institucionais que asseguram a sua presença em diversos festivais nacionais (FiraTàrrega, TAC Valladolid…) e internacionais (Sziget, Fest’Arts Libourne…).
Desde 2001 existe a Umore Azoka, organizada pelo Município de Leioa, que se tornou uma referência do setor enquanto feira/festival de promoção das Artes de Rua do País Basco. Ao longo dos anos, evoluiu para um espaço fundamental de networking, apresentação e distribuição para companhias, comunidade local e organizações que apoiam e sustentam as artes de rua. A grande maioria das companhias bascas estreia aqui os seus novos projetos, sendo também um ponto de encontro para diretores de festivais. Ainda assim, continuamos a trabalhar para garantir que outros profissionais da cultura que programam artes de rua participem igualmente, tal como acontece na Dferia, a feira basca dedicada ao teatro de sala. Isto não diminui o valor da Umore Azoka, já consolidada em Espanha, mas reforça a necessidade de, em conjunto com as instituições, afirmar também a sua relevância à escala europeia.
Em 2024, com o apoio do Governo Basco e impulsionado pela Artekale, nasceu o Open Kale, uma marca agregadora que reúne uma feira e 16 festivais, com o objetivo de criar uma rede e posicionar o País Basco como um território com uma longa tradição de artes de rua de elevada qualidade.
Para além da tradição, existem estruturas que defendem e promovem as artes de rua, tanto no setor público como privado, abrangendo criação, distribuição e programação. Estas estruturas mantêm uma boa comunicação entre si. Somos um setor relativamente harmonioso, o que facilita a abordagem a desafios futuros como:
Reforçar redes e circuitos das artes de rua que proporcionem estabilidade às companhias e assegurem a continuidade das produções.
Promover iniciativas de mediação e aproximação aos públicos que complementem os espetáculos de rua e fortaleçam o sentido de comunidade.
Integrar um programa de Artes de Rua na Dantzerti, Escola Superior de Arte Dramática e Dança, promovendo formação, investigação e documentação.
Incentivar a criação e apresentação em língua basca como ferramenta de difusão do idioma, cuja utilização no espaço público tem vindo a diminuir devido à globalização.
Reforçar as relações entre as sete províncias do País Basco, ultrapassando fronteiras administrativas e construindo identidade cultural através da língua basca.
As artes de rua no País Basco conheceram um enorme crescimento nas últimas décadas mas, sem dúvida, precisam de continuar a ser apoiadas, acompanhadas e analisadas de forma crítica para garantir a sua sustentabilidade e afirmação enquanto referência cultural. É nesse sentido que estamos atualmente a trabalhar, acreditando que a colaboração entre todos os agentes do setor e a criação de redes são a melhor forma de responder a este desafio.
Vemo-nos nas ruas!
Fotografia: El jardin de las delicias
A Artekale é uma organização sem fins lucrativos fundada em 2004 com o objetivo de valorizar, promover e divulgar as Artes de Rua bascas. Reúne profissionais dos setores público e privado, incluindo 73 companhias, 14 festivais, 3 distribuidoras e 1 espaço de criação.
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