#29. Navegar em águas desconhecidas: os desafios contemporâneos da criação artística em espaço público

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#29. Navegar em águas desconhecidas: os desafios contemporâneos da criação artística em espaço público

Data:

21

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06

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2026

Autor:

Simon Chatterton

Palavras-chave:

resiliência, relevância, risco
#29. Navegar em águas desconhecidas: os desafios contemporâneos da criação artística em espaço público

Apesar de as nossas sociedades fragmentadas e fragilizadas necessitarem mais do que nunca da criação artística em espaço público, este setor enfrenta atualmente desafios singulares num contexto marcado pela incerteza. Esta realidade levanta inúmeras questões, tanto práticas como existenciais, sobre a forma como navegamos este novo território e continuamos a criar e a apoiar a criação artística.


A criação artística em espaço público já não se encontra inteiramente à margem, mas, apesar disso, continuamos a ter de lutar por apoio e reconhecimento. Depois de termos construído um ecossistema próprio, enfrentamos agora o desafio de o manter num contexto particularmente exigente, ao mesmo tempo que procuramos repensar o que o futuro poderá trazer. Precisamos de resistir à institucionalização e à instrumentalização, protegendo a frágil ecologia do setor e afirmando a importância do nosso trabalho. A criação artística em espaço público deve também continuar a ser estimulante, relevante e viável para novas gerações de artistas e para futuros públicos, reimaginando novas possibilidades capazes de sustentar a ambição, a inovação e a criação de ligações entre pessoas e comunidades.


Os artistas enfrentam uma pressão crescente, à medida que o aumento do custo de vida torna mais difícil a experimentação e a assunção de riscos. As cidades criativas tornaram-se inacessíveis para muitos dos artistas que contribuíram para a sua regeneração, enquanto os custos associados aos espaços de trabalho, à produção artística e à própria subsistência aumentaram significativamente. Simultaneamente, o espaço público encontra-se cada vez mais regulado e controlado, sendo que os receios relacionados com a segurança e o terrorismo introduzem novos custos, exigências e condicionantes.


Os efeitos desta realidade refletem-se na redução da escala dos projetos. Festivais desaparecem ou diminuem a sua dimensão, os circuitos de circulação contraem-se e os sistemas de financiamento enfrentam uma pressão crescente. A progressiva substituição do dinheiro físico por meios de pagamento digitais afeta práticas como o busking e, no caso do Reino Unido, o Brexit teve um impacto significativo na circulação internacional de artistas e na redução das oportunidades de colaboração transnacional.


A criação artística em espaço público tem ainda de responder a condições climáticas cada vez mais imprevisíveis, enquanto a adoção de práticas mais sustentáveis implica frequentemente mais tempo, mais recursos e custos acrescidos. Os modelos de circulação sustentáveis (slow touring) confrontam-se com temporadas cada vez mais curtas e com um número reduzido de apresentações. Embora modelos como o concept touring ofereçam novas possibilidades, dificilmente conseguem substituir o valor da experiência, das competências e da relação direta que artistas experientes estabelecem com os públicos no espaço público.


Num mundo onde a cultura é consumida de forma cada vez mais digital e individualizada, a experiência ao vivo compete com conteúdos disponíveis a pedido e com elevados padrões de produção mediática. O impacto da criação artística em espaço público resulta da capacidade dos artistas para abraçar as oportunidades e os desafios da rua, trabalhando o espaço e a interação enquanto continuam a alcançar públicos alargados. As companhias de dança têm frequentemente, embora nem sempre, conseguido adaptar o seu trabalho ao espaço público com sucesso, mas o teatro, em contextos fortemente marcados pela centralidade do texto, tem revelado maiores dificuldades em compreender e explorar as possibilidades oferecidas pelo espaço público. As formas de teatro imersivo em espaços fechados, apesar da sua popularidade, dependem de um elevado controlo dos locais de apresentação, algo raramente compatível com a natureza aberta do espaço público. Do ponto de vista estético, a criação artística em espaço público encontra-se entre tendências teatrais mais naturalistas, que tendem a desvalorizar o espetáculo e o surrealismo, e, por outro lado, as expectativas de públicos moldadas por universos fantásticos e efeitos visuais digitais. As estéticas “de bricolage” perderam parte da sua relevância num mundo dominado por referências visuais associadas ao consumo e ao design de estilo de vida. As redes sociais oferecem alcance e visibilidade para trabalhos disruptivos, mas também habituam os públicos a uma procura constante pela novidade.


O mundo parece cada vez mais instável e ameaçador. As guerras culturais, combinadas com a preocupação legítima de artistas e programadores em evitar causar ofensa, significam que o uso histórico da provocação na criação artística de rua exige hoje uma nova sensibilidade. Os artistas, especialmente aqueles provenientes de comunidades sub-representadas ou que desenvolvem trabalho de natureza política, podem sentir-se particularmente vulneráveis e expostos. A cultura gratuita no espaço público torna-se um alvo fácil para discursos populistas que a classificam como desperdício ou excessivamente ideológica. Apesar disso, ou precisamente por causa disso, as criações centradas em questões sociais e políticas assumem uma renovada urgência. Mas igualmente relevante continua a ser a capacidade da criação artística em espaço público para gerar alegria, deslumbramento e um sentido de coletividade e comunidade.


As prioridades dos financiadores em torno de iniciativas centradas nos territórios e no envolvimento das comunidades deveriam constituir uma vantagem para a criação artística em espaço público, dadas as suas características e competências específicas. No entanto, o papel dos artistas continua frequentemente a ser subvalorizado e instrumentalizado. A necessidade de mobilidade, intercâmbio criativo e modelos económicos assentes na circulação artística convive de forma difícil com agendas cada vez mais orientadas para escalas estritamente locais.


A renovação da nossa base de talento artístico constitui igualmente um desafio fundamental, à medida que artistas se reformam ou abandonam o setor devido às pressões económicas. Perdemos profissionais valiosos para áreas de atividade melhor remuneradas, enquanto as disciplinas artísticas enfrentam ameaças crescentes nos sistemas educativos e, mesmo quando subsistem, raramente reconhecem ou valorizam adequadamente a realidade da criação artística em espaço público. Enquanto setor, continuamos a não dispor de oportunidades suficientes para apoiar artistas mais jovens no desenvolvimento das suas práticas, na aprendizagem com outros profissionais e na assunção dos riscos necessários para o seu crescimento artístico e profissional.


São muitos os desafios, mas a capacidade singular da criação artística em espaço público para revitalizar lugares e gerar ligações entre pessoas parece hoje mais valiosa do que nunca. Os artistas têm a capacidade de imaginar o inesperado e o extraordinário e, através da criação de experiências de deslumbramento e descoberta, permitem que as pessoas olhem de forma diferente para si próprias, para as suas comunidades e para o mundo que as rodeia. Acima de tudo, os artistas continuam a demonstrar uma notável capacidade de invenção e adaptação, respondendo aos desafios colocados pelos contextos políticos, económicos e culturais. Devemos afirmar de forma clara a centralidade da sua visão, ao mesmo tempo que protegemos as condições necessárias para criar, experimentar e assumir riscos.


Muito antes da civilização tal como a conhecemos, os seres humanos procuravam arte, criatividade e interação coletiva. A relação entre arte, pessoas e lugar sempre foi fundamental. Num mundo cada vez mais digital, independentemente do que os algoritmos venham a determinar, os artistas que trabalham no espaço público continuarão a ocupar uma posição única para criar obras capazes de nos interpelar, reunir e falar a todos.


Fotografia: Autin Dance em ensaio no 101 Outdoor Arts - National Centre for Arts in Public Space (Reino Unido)


Simon Chatterton

Programador, produtor e estratega criativo, especializado em criação artística em espaço público e projetos site-specific. Simon é fundador e diretor estratégico da 101 Outdoor Arts – National Centre for Arts in Public Space, um centro de criação com mais de 2.000m² dedicado ao desenvolvimento artístico, à inovação e ao apoio à criação em espaço público no Reino Unido desde 2014.

O 101 Outdoor Arts, Centro Nacional para as Artes em Espaço Público, trabalhou com aOutdoor Arts UK e a Without Walls na encomenda da recente Estratégia para as Artes em Espaço Público em Inglaterra.


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