Data:
.
.
Autor:
Palavras-chave:

Ao longo das últimas décadas, a Flandres desenvolveu um ecossistema notavelmente sólido para as artes performativas em espaço público. O teatro de rua, o circo, os espetáculos site specific, as obras participativas e as intervenções artísticas no espaço público tornaram-se algumas das formas mais visíveis de participação cultural. As companhias flamengas desenvolvem uma intensa atividade internacional, os festivais atraem públicos diversificados e o setor do circo é amplamente reconhecido como um dos casos de maior sucesso das políticas culturais flamengas. Estes desenvolvimentos demonstram que a Flandres reconhece cada vez mais a importância da arte para além das paredes das instituições culturais tradicionais.
Um dos maiores pontos fortes das artes performativas em espaço público é a sua acessibilidade. Ao contrário dos espetáculos apresentados em teatros ou centros de arte, estas práticas também chegam a pessoas que, normalmente, não participariam em atividades culturais. A arte vai literalmente ao encontro do público. Festivais como o Theater op de Markt, o Miramiro e o Zomer van Antwerpen demonstram como produções artísticas de elevada qualidade conseguem envolver públicos diversificados. Deste modo, o espaço público torna-se mais do que um simples cenário para a apresentação artística. Passa a afirmar-se como um lugar de encontro, diálogo e reflexão social.
A política cultural flamenga desempenhou um papel fundamental no apoio a esta evolução. O setor do circo, em particular, beneficiou de investimentos significativos na profissionalização, no desenvolvimento de talentos e na visibilidade internacional. O Decreto do Circo da Flandres de 2019 (que substituiu o Decreto do Circo originalmente aprovado em 2008) constitui um importante instrumento de política pública, proporcionando aos artistas e às organizações melhores condições para desenvolver o seu trabalho de forma sustentável. Graças a este apoio, a Flandres afirmou-se como uma região com um panorama circense dinâmico, inovador e amplamente reconhecido a nível internacional.
Ao mesmo tempo, continuam a existir oportunidades para reforçar os enquadramentos das políticas públicas. As artes performativas em espaço público situam-se na intersecção de vários domínios de intervenção, incluindo a cultura, o espaço público, o desenvolvimento urbano, o turismo e a participação cívica. Esta diversidade constitui uma das suas maiores forças, mas pode também dificultar a construção de uma visão estratégica coerente a longo prazo. Embora, nos últimos anos, tenha sido dada uma atenção significativa às obras de arte e às intervenções espaciais no espaço público, as práticas artísticas temporárias e performativas poderiam ser integradas de forma mais explícita nas discussões mais amplas sobre o espaço público e o planeamento urbano.
A organização de atividades artísticas em espaço público exige igualmente um diálogo contínuo com outras prioridades da sociedade flamenga. A segurança, a mobilidade, a acessibilidade e a qualidade de vida constituem preocupações legítimas das autoridades locais. Ao mesmo tempo, os artistas necessitam de liberdade suficiente para experimentar e criar encontros inesperados. O desafio consiste em encontrar um equilíbrio entre estes objetivos. Várias cidades flamengas demonstram já que esse equilíbrio é possível através de uma estreita colaboração entre os departamentos de cultura, os urbanistas e os artistas.
Existem igualmente oportunidades para reforçar os mecanismos de financiamento. Atualmente, muitos artistas e organizações combinam recursos provenientes de diferentes programas de apoio, festivais e parcerias locais. Embora esta flexibilidade favoreça frequentemente o desenvolvimento de projetos inovadores, uma maior atenção à criação de estruturas de apoio sustentáveis poderá contribuir para assegurar maior continuidade e promover o desenvolvimento artístico.
O futuro das artes performativas em espaço público na Flandres apresenta-se promissor. O talento artístico é abundante, o interesse do público mantém-se elevado e tanto as autoridades locais como regionais reconhecem cada vez mais o valor social da cultura no espaço público. O próximo passo consiste em integrar mais plenamente as artes performativas numa compreensão mais abrangente do espaço público, não apenas como eventos ou atividades temporárias, mas como componentes essenciais de uma sociedade dinâmica e inclusiva.
Num momento em que as pessoas comunicam cada vez mais através de canais digitais, o teatro de rua, o circo e a performance oferecem algo difícil de reproduzir: uma experiência física partilhada. Reúnem pessoas desconhecidas, criam novas perspetivas sobre lugares familiares e reforçam o tecido social das cidades e das comunidades. É precisamente por estas razões que as artes performativas merecem ocupar um lugar permanente e visível na paisagem cultural da Flandres.
Fotografia: Hugs & Handshakes, de THERE THERE Company © Michiel Devijver
Diretor do Provinciaal Domein Dommelhof, em Pelt, desde dezembro de 2011. Aí, tem vindo a reforçar o perfil internacional do centro, com uma forte aposta nas artes performativas em espaço público, no circo contemporâneo e no festival Theater op de Markt. Antes de integrar o Dommelhof, trabalhou como investigador na Vrije Universiteit Brussel (SMIT), onde se dedicou à participação cultural e às políticas culturais. Paralelamente, exerceu funções como consultor de políticas culturais e membro de direção em várias organizações culturais.
Partilhar
Ler mais